alimentação: cura e ordem

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Eu fui incumbida de escrever um texto sobre o Dia Mundial da Alimentação, que é hoje, dia 16 de outubro.

Como boa libriana, um milhão de ideias vinham a toda hora, e, assim como vinham, desapareciam; eu desistia de todas numa fração de segundo.

Resolvi escrever sobre a minha vivência com a alimentação. Nada mais justo e verdadeiro do que escrever sobre o que vivo, sobre o que respiro e sobre o que é meu trabalho, não é mesmo?

Pois bem, em muito tempo da minha vida, o alimento foi um meio de fuga emocional e física. Quando descobri o veganismo (no sentido mais amplo), quis trazer o junk da alimentação a que eu estava acostumada para uma versão “vegana” da coisa. Consegui. Fiz vários cursos e conseguia fazer tudo, ou quase tudo, que “amava” pra versão de cá: sem sofrimento e sem morte.

Na medida em que as coisas foram passando e meu desejo de liberdade ou de rompimento de estruturas foi se fortalecendo, a libertação de grandes empresas também começou a ecoar dentro de mim. O ato mais básico de minha vida – comer – dependia delas.

Convivi com pessoas que já plantavam suas coisinhas e morei por um tempo, antes de sair de viagem, plantando e colhendo meu próprio alimento. Percebendo cada vez mais a conexão com a terra e a comida.

Foi quando conheci a alimentação viva (sementes germinadas). Foi um momento revolucionário, de consciência. Conheci o jejum, e a minha ideia de alimento foi dilacerada. Ver o alimento como tema de nutrição passou a ser algo simplista, tendo em vista o seu vasto poder dentro de nós.

O alimento implica questões menos visíveis, mas que transcende o seu estado material e certamente abre nossa percepção de coisas mais sutis.

Eu podia passar dias sem comer ou beber nada. Conseguia não comer, não precisava mais beliscar o tempo todo, porque eu estava tranquila e em paz comigo e com meus sentimentos, então não precisava de nada externo pra estar bem internamente; eu era o melhor bem que podia fazer a mim mesma.

Você passa a dispor de calma mental, bem-estar físico e percepção do seu entorno, e o cuidado com o outro surge naturalmente. Sua relação com a mãe natureza e a percepção da vida certamente mudam. Floresce o respeito a qualquer ser vivente, e tudo passa a fazer mais sentido.

Perceber o alimento como um vício e reconhecer minha dependência sobre ele foi duro em dado momento, mas depois que entendi o que levava todo dia ao meu templo (que entrava pela porta, que é a boca) foi libertador.

Hoje, pra mim, o alimento ou a forma de se alimentar é um ato revolucionário, anárquico e poético: eu posso tudo, inclusive não comer por um determinado tempo. Eu quero saber de onde ele vem. Eu quero hortas urbanas. Eu quero saber quem está plantando e quem está colhendo. Eu quero EU plantar e colher. Sim, tive que “abrir mão” de várias coisas, que descobri que não faziam diferença ou sequer fazem falta. Eu escolhi abrir mão.

Ver a semente brotar, senti-la crescer com você deve ser quase como engendrar um filho…

Sentir cada comida com as mãos, poder saber e compreender que nada ali está morto, pelo contrário, só há vida; e, na sua pureza mais profunda, é realmente um estado de euforia e plenitude.

O alimento se tornou a ferramenta mais linda e mais pura que eu tenho. Através dele, conheci pessoas incríveis. Viajei por quase dois anos mochilando e “vendendo” alimento vivo ou vegano. Trabalhando em espaços e restaurantes lindos, ocupados por pessoas que procuravam fazer a revolução com amor e sem violência de nenhum tipo de animal.

A revolução silenciosa, que tantas vezes é estrondosa, que começa pelo seu, pelo meu garfo; pelas suas, pelas minhas escolhas, de cada dia, dia após dia.

A mudança de hábitos alimentares e gerais implicam impactos não só no bem- estar individual, mas também ecológicos e ambientais na nossa PACHAMAMA.

Alimentar-se é um ato social, político, econômico e espiritual. É amor, é luz, é esperança, é r –Evolução.

No Dia Mundial da Alimentação, paremos para refletir. São mais de 30mil toneladas de alimentos descartados, só no Brasil, por dia.

Enquanto você lê – e eu escrevia este texto –, mais de 900 milhões de pessoas estão passando fome no mundo.

Está em você todo o poder. O poder de transformar, de ter consciência, de agradecer. Que a r-Evolução comece, e que comece por cada um de nós e por nossos atos.

Libertação animal, humana e empoderamento alimentar.

Foto: O mundo de Gaya.

5 comentários Adicione o seu

  1. Texto forte, denso, de muita reflexão. Gratidão pela partilha!
    yolanda

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  2. Gabriela disse:

    Parabéns pelo texto e reflexões, menina. Base para muitas boas conversas!

    Por onde andas em Recife? Atualmente trabalho cultivando brotos e germinados… Interesso-me em conhecer teu espaço. Abraço! Gratidão pelas palavras.

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    1. lachicavegana disse:

      Oi flor, gratidão!!
      Estou parando onde paro rsrs. Minha mãe mora em boa viagem e meu companheiro mora em olinda. Fica um cadinho cá e outro acolá.
      Que lindooo. Meu espaço é virtual, eu viajo o tempo todo. Acabei de chegar no Brasil e junto com a Kombi Cura, vamos seguir viagem.
      Olha sábado, na livraria Cultura, vai ter uma palestra e demonstração minha a partir das 17h. Me acha no facebook que eu te mando o evento. Tenta aparecer pra gente se conhecer, hein?!
      Xêro no coração

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  3. Ronny disse:

    Essa foto ta demais!! Adorei o texto, só li hoje. Beijo no coração, flor. Tamo junto!
    Me lembrou uma musica: https://www.youtube.com/watch?v=Ax6Dkn9dtVM

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