Vegan pelo mundo – onde o turismo vale mais do que a beleza das pessoas

Ao total ficamos uns 5 dias em Campo Grande.

No primeiro dia nas terras campo grandenses escutamos falar muito sobre Bonito. E eu, já tinha visto várias fotos de amigos que tinham visitado por lá e parecia ser o lugar mais lindo por aquelas terras que poderíamos visitar. Doida pra conhecer resolvemos partir no outro dia de manhã logo cedo para conhecer Bonito.

A Raquel tem uma amiga que mora por lá e falou que ela talvez pudesse nos dar uma ajuda, traz que chegássemos.

Partimos rumo a Bonito, sabendo que tudo era muito turístico e talvez caro. Mas, iludida achei que poderia encontrar algum balneário que fosse de graça. Afinal, tudo me parecia ser na natureza, se tivéssemos que pagar seria pouquinho só pra manutenção da reserva. Ilusão.

Esta talvez seja a viagem mais perrengue que eu já fiz.

Saímos de manhã bem cedo e a Raquel nos deu carona até a estrada.

Pegamos uma carona com o Lucas, que enguiçou sua caminhonete antes de um posto da polícia federal. Andamos muito até conseguir uma nova carona. Orlando, um moço que trabalhava na colheita do mar de soja que cobre aquela região foi quem nos levou até a próxima cidade.
Chegamos em Sidrolândia e pegamos uma carona no caminhão do seu Alberto. Um senhor que nos explicou tudo que sabia sobre o processo de industrialização da soja. Desde a plantação até a exportação, em diferentes épocas.
  • EVITANDO SOJA NA VIDA: entenda o porquê
Com o seu relato quero distância de soja rsrs. Para se fazer a colheita da soja é preciso, quando elas estão maduras, jogar um tipo de veneno, muito forte para que as folhas morram, quando todas elas caem a máquina passa retirando só o grão.
No MT há muita, mas muita terra mesmo e todas tem dona. Reservas florestais têm dono e todos os fazendeiros são obrigados a ter uma porcentagem das suas terras pantaneiras preservadas. Equivalente ao tamanho de terra de sua propriedade.
A mesma terra que se planta soja, se planta milho, e alimento pro gado. Quase que 80% da soja é usada para exportação, principalmente para China (segundo nossos amigos que nos explicaram o processo). Em época de colheita as máquinas não param, dia e noite rodando pra colheita e já plantando alguma outra semente.
Seu Alberto deixou a gente na entrada de Bonito num posto de gasolina desenrolamos 2 pratos de comida por R$ 10, bem variado, legumes, feijões, arroz e tubérculos.
Barriga cheia voltamos pra estrada….andamos mais um tanto em baixo de sol e com mochilas de 15 e 12kg cada um.
Depois de muito penar o João parou pra nos alcançar até a cidade de Bonito.
É difícil pegar carona até lá, quase não passam caminhões e no dia que fomos quase não passavam carros também.
Chegando na cidade paramos numa agência de turismo. Saímos de lá chocados com os preços absurdos de caros. Descobrimos que não existia NADA de graça, nenhum parque, nenhum balneário, nada. Ok… mesmo assim vamos esperar falar com a amiga da Raquel de repente ela conhece alguma coisa.
O pior de tudo é descobrir que só existem dois balneários municipais o resto é tudo dentro de fazenda.
Andamos até a praça principal onde sentamos nos banquinhos. Morta de sede o Ronny foi comprar um suco de uma fruta que eu não conhecia e queria muito provar (não lembro o nome).
  • Preparem pra cena :O

talvez está tenha sido uma das cenas mais horríveis que eu já presenciei na vida ou pelo menos até agora.

Traz que me sentei na praça, chega um menino e logo em seguida mais três deles. De calça colocada, brinco na orelha, de boné, negros e ao som de um estrondoso funk. Sentam bem na minha frente numa mesinha.

Minutos depois chega um carro da polícia pra fazer a vistoria pois tiveram uma denúncia e estavam fazendo a ronda. A praça estava razoavelmente cheia eu estava ali e algumas outras pessoas também. Mas, só os quatro foram revistados. Mas, só os quatro foram vasculhados até o cabelo.

Policial: bora encosta aí na árvore.

De cabeça baixa todo mundo segue ordens.

Policial: não encontra nada. Menores de idade conversando na praça, essa era a situação.

E eis que escuto: vaza dessa praça que é pra TURISTA. OI?!

Adolescentes saem de cabeça baixa e sem olhar pra trás.

Em lágrimas conto ao Ronny o que acabara de acontecer e peço que saíamos dali naquele exato momento. Eram 17h e seria difícil conseguirmos carona pra voltar, mas mesmo assim saímos.

Ele e muito menos queria contribuir com R$ 0,50 que fosse com aquele turismo. Com aquela exclusão, com aquela máscara de que a natureza é linda e a cidade funciona super bem, os moradores estão super felizes com o turismo que só traz alegria pra todo mundo. Por amor, passei da idade de acreditar nisso.

Bonito é um lugar incrível (vi pelas fotos) naturalmente falando. Mas, imundo pelos seus fazendeiros, pelo turismo e exploração do lugar e das pessoas, pela ação da polícia que com direito algum expulsou moradores daquela praça. Eu sai de lá me perguntando: como crescem esses adolescentes?! da onde surge essa discriminação toda?! sai de lá atordoada com a certeza de que a terra já não é nossa e que tudo tem dono.

Na estrada de volta andamos muito até um caminhão caridoso parar e nos dar carona. O Jucimar era um jovem que quase não falava muito, ele carregava cimento e só iria até Sidrolândia, mas já era um bem mais perto para chegarmos até Campo Grande.

Chegamos às 21h na cidade. Já não dava pra seguir viagem. Então, resolvemos procurar uma pousadinha, alojamento, qualquer coisa que pudéssemos passar a noite. A cidade a essa hora já estava deserta, andamos muito pra conseguir onde dormir. Achamos uma pousadinha que nos cobrou R$ 90 com café da manhã.

No dia seguinte, acordamos cedo e tomamos um café muito bom, com muitas frutas e suco. Saímos pra estrada.

Demoramos uns 40′ até o Aparecido parar seu carro e nos dar uma carona iluminada.

Muitas histórias. Muitas. Ex morador de rua, perdeu a perna num acidente de moto, casado com uma pernambucana nos deixou na frente da casa da Raquel.

Uma história de superação e tanto. Ficou nosso amigo, nos adicionou no face e sempre nos pergunta como estamos.

Quer que voltemos por lá pra ficar na casa dele pra ele levar a gente pra conhecer outros lugares lindos e ainda preservados.😀

Resumo dessa prosa toda: da vida a gente só leva o que aprende. Mochileiros: viagem só de dia. Sejamos gentis, sempre. O Mato Grosso do Sul é terra onde quem manda é quem tem dinheiro e pode sair comprando tudo. Quase tudo na vida tem um preço, mas nem tudo se pode comprar. A vida é muito linda, seja intenso cada momento. Eu não tenho “cunhão” pra encarar discriminação social e racial, pra fazer ninguém de escravo ou menosprezar algum ser vivente. Mas o mundo está cheio de pessoas assim, então antes julgá-las procure entender a sempre um processo intenso atrás disso tudo.

Tem mais fotos lá no face e no face do Ronny. Leia mais no Não sei de nada não.

Amanhã tem mais…

Gratidão vida e aprendizados.

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 mar de soja

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Aparecido: superação aprendi com ele

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carona na caminhonete do Lucas

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R$ 10

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caminhão do seu Alberto. Cheio de caveiras pros dias que dorme na estrada e em lugares mais “perigosos” segundo ele, afastam as pessoas🙂

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