Entre matos e matas; um novo ciclo

“Já se perguntaram o que irão fazer quando se tornarem adultos? Com toda probalidade se casarão e antes de se darem conta de onde estão já serão pais e mães e então ficarão atados a um emprego ou ao lar, no qual, aos poucos definharão”.

Foi assim que me sentia quando decidi mudar e é com imensa gratidão que compartilho com vocês esta nova e linda fase.

Este post é em especial aos meus amigos que não param de me perguntar onde estou morando e como vou fazer agora que larguei o emprego, larguei a cidade grande, larguei o sustento “certo” e resolvi ganhar o mundo, viver da forma mais simples que consiga e estar muito mais integrada as coisas que acredito e quero pra mim, pros meus filhos, pros animais, pro mundo, pro meus amigos e família.

Desde que comecei a criar opinião sobre tudo e sobre qualquer coisa meu coração sempre foi inquieto com as coisas do mundo, as desigualdades, as fraquezas humanas, os medos e todas as outras sutilezas e sentimentos. Sempre me perguntei qual era o significado da vida e do que eu estava fazendo dessa minha passagem neste planeta.

Com 21 anos me mudei para o Rio de Janeiro. Com 23 anos as confusões e as perguntas foram ficando mais presente, o amor começou a gritar no meu coração e pedir pra sair. Entrei numa ONG linda, fui voluntária e cuidava de recém nascidos. Conheci pessoas lindas, crianças incríveis mas apesar das pessoas serem lindas, achava que tudo estava pelo caminho mais curto, sabe?! Sem romper o mal pela raíz. O assistencialismo era algo que me trazia uma empatia enorme, pois sabia que é não era uma forma de mudar as coisas, de mudar a sociedade enferma que estamos. Não sentia questionamento interno de cada um que ali estava sobre como mudar aquele quadro, sobre como tornar as coisas diferentes, sentia que a busca era mais um sentimento de que preciso fazer algo nesta vida para poder garantir o outro plano”. Entendem? Ainda não era aquilo…

Começei a ter acesso a vários pensadores e minha cabeça começou a ir lá na frente, minha alma começou a querer mais e mais. Aos poucos parei de comer carne e um dia acordei e senti que não podia mais comer animais e nem seus derivados. As buscas começaram a ficar mais intensas, as leituras e a evolução espiritual também.

Com o tempo, fui atraindo pessoas com a mesma energia e mesma busca. Os animais e o respeito a eles passou a ser uma coisa forte na minha vida e daí comecei a desconstruir várias coisas.

Neste instante começou o conflito com a profissão (ainda não muito intenso). Já não fazia tanto sentido ser publicitária.

Publicidade é uma profissão incrível, mas como quase tudo na nossa sociedade quer lucros, quer enfiar produtos e serviços dos quais não precisamos para ser feliz. O oprimido virando opressor e o opressor virando oprimido, um ciclo inacabável e doentio que já não mais tinha sentido nenhum pra mim. Comecei a entender que eu influenciava diretamente nas desigualdades sociais que eu tanto queria que acabasse.

O trabalho em agência de publicidade já não fazia parte de mim. Os três zeros no começo do mês na minha conta não valiam minha felicidade. Comecei a ficar bem aflita com tudo o que fazia dia-a-dia, mas o medo de deixar o “seguro”e de pensar o quanto talvez decepcionasse minha família não me deixava ir em frente.

Este ano, 2013, tinha decidido que ia ser diferente. Como? Não sabia, mas sim seria diferente. Nada pra mim fazia mais sentido. A estrutura social em que vivemos, as relações humanas cheias de cobranças e espectativas que geram frustações bizarras nas pessoas, a relação com os animais e o respeito a vida, as pessoas falando de amor sem ao menos se esforçar para entender o quão lindo é este sentimento. Amar é doar. É ser, sem expectativas, sem medo. Onde há amor, não há lugar pra medo e vazio.

Depois de muito refletir entendi que o problema estava em mim e não nas pessoas.

Passei a analisar e ler muito. O que poderia fazer para tamanhas inquietações serem amenizadas? Qual era o meu papel nessa estrutura toda? O que eu estava fazendo da minha vida? Como estava vivendo minha vida? O que eu queria para mim e para o mundo? Já estava cansada de apenas reclamar, reclamar e me revoltar com estruturas primitivas de alimentação, de relações, da dependência do outro para ser feliz. Eu queria mais e menos para ser eu mesma. Para ser o que eu acreditava não o que os outros depositaram em mim.

Vi que quanto mais eu buscava  ter dinheiro, mas eu explorava as pessoas e os animais. Mais eu fazia tudo o que eu não queria. Aumentar a desiguladade, aumentar o consumo, explorar animais, explorar os bens naturais….tudo errado. O mundo tava todo errado e eu tava ajudando ainda mais a ficar tudo ao contrário.

Viajar é uma coisa que sempre me fez bem, o mundo é uma coisa rica de aprendizado e tua energia atrai o que você quiser. A minha atraia pessoas ricas em vida e prontas para te ensinar algo. Abri a cabeça e o coração e tudo foi chegando, se aproximando e ficando, se aprochegando e se acoplando ao meu ser.

Com uma amiga decidimos viajar para um lugar inóspito onde pudesse estar conectada com a minha forma mais pura, in natura. Fomos ao Chile (deserto do atacama e iquique). Lá conheci pessoas prontas a mostrar que na vida, a única coisa que valia eram as experiências, as coisas que vivemos e buscamos, as trocas pessoais, e a simplicidade da natureza.

Saber viver é a coisa mais rica da vida. Ver o dia nascer, ver os animais sairem livres, ver o sol ir embora, um dia após o outro e viver cada dia como se fosse o último. O amanhã era incerto demais para se preocupar tanto com ele.

A conexão foi tão profunda que já sabia o que fazer quando voltasse de viagem. Comecei a pensar no quanto as pessoas depositavam em mim expectativas das quais eu não queria mais corresponder, queria ser eu mesma, sem medo, sem receio, sem planos, sem expectativas e sem ilusões.

A Teresa, minha terapeuta espiritual, foi uma pessoa chave no processo de descoberta e aos poucos mais e mais pessoas foram se tornando “chaves” para abrir as minhas portas e me fazerem enxergar que ser livre e ser independente são coisas totalmente diferentes.

Assim que voltei da viagem de férias, tinha plena certeza que publicidade da forma que eu estava empregando não fazia mais sentido nenhum, nenhum mesmo, na minha vida. Entendi que tudo o que eu acreditava ou que me fizeram acreditar não tinha mais tanta importância assim pra mim.

Os outros meses foram de mais descobertas ainda. As pessoas começaram a me entender e conversei com minha mãe e ela aceitou essa mudança com muita sabedoria e entendimento. As coisas em que eu acreditava agora passaram a fazer total sentido e se encaixar perfeitamente na minha vida, cada vírgula e cada ponto.

Fui atraída a Paraty. Uma cidade aqui do Rio de Janeiro, num lugar lindo, onde as pessoas já estavam nessa busca a mais tempo que eu, já viviam o que eu estava buscando.

Participei de um casamento, do Nando e da Sofie, que foi a coisa mais mágica do mundo até hoje. Super simples, cada um trouxe um prato e muito amor. As pessoas se ajudavam e estavam em contato com o cosmo. Eles dois se amando muito, e todos num só amor e coração.

Voltei pro Rio e a cidade passou a não ter sentido pra mim. Pedi demissão e tive que viajar para Bolívia (minha família por parte de pai é de lá). Dei grande parte dos meus 7 anos de Rio e me desfiz de muitas coisas; roupas, sapatos- e muitas outras coisas que acumelei nesses anos.

Passei um mês na Bolívia e entre lugares e lugares senti que lá também não fazia sentido nenhum  (relatei minhas descobertas e situações nestes dois posts).

Voltei e fui pra Recife, minha cidade natal. Fiquei por lá 1 mês e algumas semanas. Nada lá pra mim tinha sentido, nada. As pessoas e a vida lá tava muito pouco pra mim, precisava voltar pro Rio e já sabia dessa sensação, só precisava sentir de novo rsrs.

Nesse meio tempo todo, em algum momento, o Ronny apareceu na minha vida. O Ronny é uma pessoa linda, um coração lindo e decidimos que nesta busca vamos juntos. Ele acompanhou todas as minhas últimas angustias, confusões e conflitos famíliares além de pessoal, claro.

A toca encantada

Este é o lugar que estacionei por enquanto. Aqui pouco precisamos de dinheiro, plantamos ou trocamos quase tudo o que comemos, fazemos o que queremos e somos livres para sentir e fazer o que quisermos. Aqui se trabalha e muito, mas com o que se gosta, com o que te faz bem e com o que você acredita, seja para você ou para o grupo e seja por dinheiro ou não. Muito se conversa, as decisões são em conjunto. Estudamos e nos acrescentamos juntos. Somos 5 agora comigo. A Sofie e o Nando, eu e o Ronny e o Maikito.

Livre: não tem um conceito pré definido, mas lendo Krishnamurti cheguei a algumas reflexões e hoje é o que vou buscar pra mim. A capacidade de pensar livremente é um pensamento sem medo, sem fórmulas, sem dogmas, sem conceitos, sem cerimônias…sem, sem, sem… só na compreensão pode haver liberdade. Só na compreensão de entender a dependência no outro ou em alguma coisa para ser feliz é que podemos ser livres.  A felicidade é interna e individual, não deve existir meios e nem pessoas que tenham a capacidade de deixar você mais ou menos feliz.

Aqui a gente trabalha na horta, na mente, no corpo, na vida, na liberdade, na natureza, nas relações pessoais baseadas no amor, nos animais e no respeito a nós e a toda forma de vida. Integrar-se ao meio e não estar no meio. Não há luxos que o dinheiro compra, mas há luxos que a natureza oferece. Luxos de se alimentar melhor, de usar remédios naturais, de não intoxicar o corpo, de colher seu alimento de ver o sol e de contemplar a chuva. De deitar na rede sem o medo da incerteza do amanhã. Sem o medo da morte, sem o frio das relações pessoais da cidade grande. Aqui há tempo para escutar o outro, para entender o outro, para ver o passarinho crescer e contemplar o seu voo. Sentir a brisa do vendo no rosto sem ter que sair correndo porque está atrasado ou vai pegar engarrafamento. Não há dor nem medo, pois só há amor.

Não somos hippies, comunistas, consumistas ou qualquer definição pronta que se conhece. Cada um tem sua filosofia, cada um acredita em alguma coisa, mas todos partimos do mesmo ponto: o amor.

Somos pessoas que cansaram do sistema opressor e optamos em sermos simples e sermos felizes. Ver a vida acontecer e ser instrumento chave de nossas descobertas de nossas ações. Ser amor, sem pedir nada em troca. Ser amor, apesar de todas as consequências. Ser e muito pouco ter.

Cansamos de só reclamar disso ou daquilo e resolvemos agir. Resolvemos nos libertar das coisas que a maioria de nós não acredita mas tem medo de ir, de fluir e de seguir.

Falo nós, porque quando disse da minha decisão grande parte das pessoas me falaram que gostariam de ter minha coragem, então senti que é um sentimento quase que universal.

Eu sou vegana e hoje não me sinto no direito de comer o que quero, principalmente se estamos falando de animais não humanos mortos e sendo explorados. O Ronny não come carne, mas o Maiko, a Sofie e o Nando comem o querem e quando querem, mas aqui quase não se come animal morto.

Minha vida a partir de agora vai ser por aqui, até sabe se lá deus quando rsrs.

Moramos em Paraty – RJ, literalmente numa Toca/caverna. Ela está aberta pra quem quiser vir, o sistema é de troca e de compartilhamento. As pessoas que aqui chegam deixam o que querem deixar ou não deixam nada. Simplesmente são. Aqui você pode ser quem você quiser, inclusive você mesmo. Tudo é nosso. O dinheiro é nosso. A casa é nossa. A comida é nossa. Aqui você deixa seu eu e vem ser nós.

Para entender melhor a filosofia e o que fazemos por aqui é possível ver aqui no site http://ronnyfc.wix.com/tocaencantada

Bom amigos, este é o lugar que estou morando agora. Para todos aqueles que não tinham entendido onde estava e como estava.

Se depois disso tudo vocês acharam que estou ficando doida ou que virei inrresponsável; que merda (rsrs) não consegui fazer com que entendessem este processo ou talvez vocês não quiseram entender este processo.

“A liberdade não está em tentar ser algo diferente, em fazer aquilo que gostariam, em seguir um exemplo da tradição de seus pais, do seu guru, mas em compreender o que vocês são a cada momento”

“ É bem tolo aquele que, iludido, procura suprir a ausência do Bem, acumulando muitos bens. No fim… desilusão”

“O seu ser é algo muito complexo; e só será possível compreender tudo isso quando vocês não desejarem ser alguém, quando vocês não imitarem, quando vocês não seguirem, quando vocês se revoltarem contra toda a tradição de tentar se tornar algo. Essa é a única revolução legítima que conduz a liberdade extraordinária”. 

Krishnamurti

Desculpem o texto enorme, mas é um processo muito lindo e grande. Tentei resumir ao máximo.

Só entendam uma coisa: estou feliz, livre, meu coração está gritando e minha alma em festa.

Gratidão à vida por ela ter me feito acordar ainda jovem.

Aqui há mais fotos da Toca Encantada.: https://www.facebook.com/mendozalejandra/media_set?set=a.10151503806681691.1073741826.668606690&type=3

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9 comentários Adicione o seu

  1. Renata Amaral disse:

    Só desejo que continue livre, e cada dia mais feliz do que nunca! Mora no coração!!!

    Beijossssssssss

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    1. lachicavegana disse:

      Rêeeeeezoca linda…brigada. amo-te. bjooos

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  2. SIlmara disse:

    Agora sim sei onde tu tá! A brincadeira agora é “onde etá Ale?”
    Adorei a toca ! :))) Mas rola uma escova de dente e sabonete, né??🙂 Muita liberdade pra vc! Se Deus não te deu asas, que te dê coragem pra ir longe! bjsssss

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    1. lachicavegana disse:

      hahahahhaah. Tem tudo isso Sil. Mas, tamos buscando fazer. O fluor da pasa de dente é uma merda pros dentes. TE amoooooooooooooooooooo

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  3. Ronny disse:

    Gratidão por compartilhar o pensamento! Linda!

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  4. Renata Tsubaki disse:

    Obrigada por ter compartilhado conosco, uma fase linda de intensa felicidade!!! Nos mostrar que o paraizo é bem mais perto que imaginamos!!!
    Espero o dia em todos nós, possamos nos reunir em só sentimento….
    Muita Luz pra ti!!!
    Bj

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    1. lachicavegana disse:

      gratidão Renata. Que a vida seja assim…linda e simples para todos nós. Beijos de luz

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